
História: Lugares de memória da escravidão e da cultura negra em Pernambuco, em livro imperdível
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Por Letícia Lins
Quem olha para o foto acima ou transita pela histórica Rua do Bom Jesus – uma das principais atrações turísticas do Centro do Recife – não imagina que além de marcar o início da história da cidade, aquela via desempenhou um papel de triste memória no passado. É que a rua servia como ponto de quarentena e venda de escravizados. Já quem transita pelo bairro de Santo Antônio, para contemplar a Basílica e o Convento do Carmo (foto abaixo), nem se liga que ali na frente, no chamado Pátio do Carmo, está a estátua de Zumbi dos Palmares, que foi líder do maior quilombo do período colonial. É que no local teria sido exposta a cabeça do herói, após assassinado em 1695. Estas e outras revelações constam do livro “Lugares de memória da escravidão e da cultura negra em Pernambuco”, que a Cepe (Companhia Editora de Pernambuco) está lançando nessa quinta-feira (30/11), a partir das 18h, no Centro da Cultura Afro-Brasileira, instalado na casa de número 34, do Pátio de São Pedro. O evento contará com bate-papo reunindo os autores e é aberto ao público.
Neste dia em que se encerra o Mês da Consciência Negra, o lançamento do livro é uma boa opção para se refletir sobre nosso desumano passado em Pernambuco e no Brasil, o país que recebeu o maior número de pessoas escravizadas das Américas e o último do Continente acabar com regime tão vergonhoso para a nossa história. Infelizmente, a nossa cidade também teve uma trajetória mergulhada no sistema escravista. No passado, o Recife foi o quinto maior centro do tráfico de seres humanos do mundo. Chegou a ter dez por cento de sua população na condição cativa (década de 1880) e as redes de influência política e econômica protegeram fortemente o rentável negócio. E apesar desse cenário, o que se observa na cidade e em sua região metropolitana é o esquecimento dessas memórias.
E´o que lembra Isabel Guillen, organizadora do livro. “Caminhando pelas ruas do Recife, lembramos que a cidade foi palco de mais de 300 anos de escravidão. Esta observação, naturalmente, se estende às cidades de Olinda, Paulista, Jaboatão dos Guararapes e Igarassu. Onde estão as marcas dessa história nas cidades? Podemos procurar os lugares que lembram esse período, mas não encontraremos com facilidade. Parece que a história da escravidão e da cultura considerada negra, herança da diáspora, permanece invisibilizada na cidade”.
O livro vai inventariando em Pernambuco lugares de memórias na perspectiva de estimular o debate sobre o apagamento. Apesar do amplo arco de análise, a obra foca, em especial, o pós-Abolição, momento em que houve a queima dos arquivos da escravidão por ordem ministerial, avaliando de que forma a escravidão foi tratada historicamente e como se manteve na memória coletiva do Brasil. “O pós-Abolição se constitui num longo período em que o trauma (da escravidão) foi sendo tratado, muitas vezes de maneira enviesada, de acordo com os ditames da época, pautadas sobretudo pelas teorias raciais que inferiorizam os afrodescendentes e pelo ideal de branqueamento da população brasileira”, indica a organizadora.
Fruto de um projeto aprovado pelo Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), o livro conta com ensaios assinados por Marcus Joaquim Maciel de Carvalho (“O tráfico de escravos depois de 1831: história e esquecimento no Nordeste insurgente”); Ezequiel David do Amaral Canário (“A escravidão e seus espaços no Recife oitocentista”); Robson Pedrosa Costa (“Escravidão e lugares de memória negra em Olinda”); Marcelo Mac Cord (“Irmandades negras em Pernambuco”); Gabriel Navarro de Barros (“Entre ruas e praças, o Teatro de Santa Isabel e a Faculdade de Direito: lugares de memória do abolicionismo e de lutas judiciais por liberdade no Recife”); Janine Primo Carvalho Meneses (“Quilombro, passado presente”); Ivaldo Marciano de França Lima (“Sambistas, maracatuzeiros e afoxezeiros: entre as memórias e a história, lugares de memória de homens e mulheres que fazem o Carnaval do Recife”); Raphael Souza Lima (“Àgò Iónà: uma breve história dos xangozeiros do Recife”); Rosely Tavares de Souza (“O lugar de memória da escravidão no Recife e os desafios para a implementação da Lei nº 10.639/2003 na Educação Básica”) e de Isabel Cristina Martins Guillen (“O debate sobre a memória da escravidão e do tráfico atlântico de africanos escravizados: lugares de memória na Região Metropolitana do Recife”).
O livro aponta ainda para desafios que se apresentam, como, por exemplo, na educação. Passados 15 anos da implementação da obrigatoriedade do ensino da história e cultura da África e dos afrodescendentes, a temática, como pontua a historiadora Rosely de Souza, não vem sendo atualizada nas salas de aulas de escolas do Recife e região. “Precisamos refletir sobre o que, de fato, consolida-se na formação desses estudantes quando tratamos do tema escravidão e quais foram as proporções desse acontecimento na cidade em que vivem. Infelizmente, poucos conseguem caminhar pela cidade do Recife e estabelecer um sentido entre os lugares que transitam e a escravidão”, assegura.
Serviço:
Lançamento do livro Lugares de memória da escravidão e da cultura negra em Pernambuco
Quando: 30 de novembro, quinta-feira
Local: Núcleo da Cultura Afro-brasileira
Endereço: Pátio de São Pedro, 34, São José, Recife
Hora: 18h
Evento aberto ao público
Preço do livro: R$ R$ 60,00
Fonte: Blog #OxeRecife (30/11/2023)
Fotos: Divulgação / Cepe