O livro Frevo: transformações ao longo do passo, que será lançado pela Cepe no dia 8 de fevereiro, a partir das 15h, no Paço do Frevo, é resultado de uma longa pesquisa realizada em conjunto por Climério de Oliveira Santos e Marcos Ferreira Mendes, músicos, compositores, professores do Conservatório Pernambucano de Música e figuras intimamente ligadas ao frevo.
Em entrevista concedida à Assessoria de Imprensa da Cepe, Climério fala um pouco sobre o projeto. Acompanhe:
Frevo: Transformações ao longo do passo é um projeto que levou cinco anos para ser gestado. Gostaria de saber como foi essa experiência.
Climério de Oliveira - Esse mergulho não foi fácil, sobretudo porque tentamos traçar conexões entre a história e o presente do frevo. Foi uma experiência incrivelmente enriquecedora e esse tem sido o nosso ganho maior na construção da coleção Batuque Book.
O frevo é um fluxo musical grandioso, diverso, dinâmico e longevo. Por isso mesmo eu meio que parafraseio aqui Carlos Gardel: cinco anos não são nada para o frevo! Esse tal de frevo é tanto popular quanto complexo. Surge nas ruas, com uma negrada linda ansiosa por liberdade; vai sendo apropriado pelas classes médias e pela elite cultural pernambucana, mas também transcorre amplamente praticado pelas agremiações de negros e negras, pela multidão. É absorvido e explorado pela indústria do entretenimento e, depois, deixado de lado. Sem dúvida, o nosso mergulho profundo nesse fluxo mudou bastante a nossa percepção sobre o frevo, sobre Pernambuco e sobre o mundo da música. É difícil explicar em poucas palavras. Porém, podemos apontar um traço dessa mudança em nossa sensibilidade: o frevo é um fluxo musical e é, ao mesmo tempo o processo de constituição desse fluxo. Aprendemos a gostar mais da tradição e também das inovações. Notamos que as convenções foram construídas “ao longo do passo” (história) e buscamos identificar vários pontos de transformação, ou seja, os momentos-lugares-modos em que essas transformações eram salientadas.
O livro discute verdades estabelecidas e levanta questões. Você pode destacar as mais significativas?
Climério de Oliveira - Duas questões amplas norteiam o nosso trabalho. A primeira é: como o frevo se fez, como ele se constituiu? A outra questão é: como o frevo é feito hoje? Indagações como essas focalizam, sobretudo, os agentes sociais, os diversos fazedores que chamamos de frevistas do passado e do presente: instrumentistas, dançadores(as), compositores(as), maestros(as), arranjadores, jornalistas e outros(as) intelectuais, além de várias outras categorias influentes.
Foi persistindo nessas questões que desvendamos um fenômeno que é elo impressionante entre o Carnaval de Recife-Olinda e alguns festivais ocorrentes no norte de Portugal: o zé-pereira. No frevo temos uma batida rítmica que se chama zé-pereira, que também é o nome de agrupamentos carnavalescos ao toque de tambores que remontam ao século XIX, ocorrentes no Rio e em Pernambuco e outros locais. Atualmente, em Portugal, ocorrem festejos animados pelos zés-pereiras, grupos de percussão (bombos, caixas e, alguns grupos, foles), os quais também apresentam bonecos gigantes, muito semelhantes aos de Olinda. Um detalhe digno de nota: constatamos que há grupos de Portugal que tocam a mesma batida rítmica do zé-pereira do frevo pernambucano.
No entanto, aquelas questões colocadas trazem outras constatações e verificações: no decurso histórico, os frevistas ora agregam influências de outras músicas, ora as repelem; por vezes, eles adotam elementos de outras músicas mas, no discurso verbal, afirmam que as rejeitam; noutros momentos, afirmam que aceitam certos elementos musicais “de fora”, mas, na prática, vetam tais mixagens; o frevo foi categorizado, mas permanece rebelde às categorias: o chamado frevo de rua (instrumental), é tocado nas ruas, nos palcos e nas salas de concerto; o frevo de bloco é performado não só pelos blocos, como também o é pelas troças e clubes nas ruas; o mesmo acontece com o frevo-canção que toma lugar em ruas, palcos abertos e nas performances que priorizam a música instrumental.
Outra constatação: em que pese o talento dos músicos, as políticas públicas foram e ainda são fundamentais para o desenvolvimento do frevo: o Carnaval (que demanda recursos de vários tipos), os festivais de frevo, os organismos (como a Casa do Carnaval e o Paço do Frevo), etc. Mas, no presente, vários frevistas não querem reconhecer isso ou não sabem ou esquecem o que vêm a ser as políticas públicas voltadas para a cultura. No livro, discutimos esse tema.
Já existe uma razoável bibliografia sobre o frevo. Como você posiciona Frevo entre as obras já editadas?
Climério de Oliveira - Sim, há um corpus razoável sobre frevo: artigos, dissertações, teses e livros publicados. A maioria contribui com a compreensão desse fluxo musical e alguns trabalhos são ricos. Entre os autores que publicaram livros interessantes estão Ruy Duarte, Valdemar de Oliveira, Capiba, José Ataíde de Melo, Rita de Cássia Barbosa de Araújo, Leonardo Dantas, Katarina Real, Angela Belfort, Evandro Rabello, José Teles, Carlos Eduardo Amaral, só para citar alguns. Todos, os últimos sobretudo, contribuíram muito com o nosso trabalho. Entretanto, os que tratam da música, voltam-se primordialmente para a história do frevo, para o que foi feito no passado e não descrevem ou analisam a performance musical do presente, pois não são baseados em pesquisa etnográfica.
No livro, damos um destaque para o clássico Frevo, capoeira e passo, de Valdemar de Oliveira, originalmente publicado em 1971, que extrapola a parte histórica e entra nos significados musicais e, ainda que timidamente, trata dos aspectos técnicos. Pelo que Valdemar exprime, nota-se que ele foi às ruas e sacou a importância de presenciar a performance musical para compreender o frevo.
Além de ter uma ampla formação intelectual, esse dramaturgo era músico-compositor, o que lhe subsidiou na sua musicológica do frevo. Mas os paradigmas da época podem ter impedido Valdemar de Oliveira de dar atenção a alguns aspectos, inclusive os técnicos (como as batidas rítmicas da percussão e de outros instrumentos de base). E mesmo as análises de melodia e harmonia poderiam ter ido mais longe. Mas o gargalo maior é que ele ajudou a difundir vários tropos, como o fez Mário Melo, entre os quais: as categorias de frevos coqueiro, abafo e ventania, que são inócuas, apesar de serem verbalizadas por frevistas famosos ainda hoje; a ideia de que o único frevo autêntico é o frevo de rua; os atos falhos, ao afirmar que o frevo é masculino (infelizmente, ele omite o nome de Joana Batista Ramos da autoria de Vassourinhas, atribuindo-a apenas a Mathias da Rocha) e que os homossexuais sujam o frevo; a naturalização da ideia de que o passo veio estritamente da capoeira, quando muitos não-capoeiristas também caiam no furdunço que recebeu o nome de frevo; etc. Assim, uma parte das suas análises é enviesada pelo acento diacrítico dos preconceitos ainda aquiescidos por vários intelectuais brasileiros da época.
Nós também teremos os nossos vieses revelados por outrem num futuro não muito distante, pois não somos melhores do que Valdemar de Oliveira, o nosso musicólogo pioneiro do frevo. Mas foi necessário darmos a nossa contribuição, atualizarmos na medida do possível. O nosso trabalho lança foco em pontos de mudança no decurso histórico, demonstra (com esboços) vários conjuntos instrumentais e suas transformações ao longo da história do frevo, discute e inquire sobre juízos de valor que hierarquizam o frevo de hoje – por exemplo, a ideia de que o frevo das salas de concerto é superior ao das orquestras de rua –, aborda a atuação das mulheres nesse fluxo musical (até hoje execrada pelos machistas), os aspectos técnicos e sua ligação com os significados, entre tantas outras questões.
E, acentuando o traço etnográfico (o presente vivenciado, registrado e analisado), o que resultou no que considero melhor do nosso trabalho, nós participamos da performance ao vivo e trouxemos um relato analítico da performance da Orquestra Maestro Oséas acompanhando a troça Ceroula nas ruas de Olinda, numa terça feira de carnaval. Um capítulo que revela ocorrências nunca antes narradas em texto com tal profundidade. Para completar, o livro é complementado com o vídeo O frevo na rua: Orquestra Maestro Oséas, que pode ser acessado gratuitamente no YouTube, o que é agilizado através do QR Code que a CEPE Editora inseriu na contracapa. Enfim, são muitas as novidades que o livro traz.
Como foi a parceria com Marcos FM?
Climério de Oliveira - Marcos FM é um grande amigo. Eu o considero um irmão. Há mais de 10 anos, somos colegas no Conservatório Pernambucano de Música; há 5 anos ele toca baixo na banda que me acompanha e a qual ele às vezes dirige e para a qual faz arranjos. Formalmente, nós já fomos professor um do outro: ele foi aluno meu na disciplina de Etnomusicologia e eu fui aluno dele na disciplina de Arranjo. Além disso, ele á também um incrível parceiro de pesquisa porque é muito disposto ao trabalho de campo e às leituras e análises, é arguto e inquieto. No livro Frevo, nós trabalhamos juntos. É certo que eu tenho mais experiências a agregar na pesquisa de campo, nas análises socioculturais e no texto, ao passo que ele tem mais experiências a agregar nos aspectos técnicos e nas análises estruturais das músicas. Porém, em todas as partes do trabalho o fazer juntos prevaleceu. O resultado é o surgimento deste trabalho inédito: um livro sobre o frevo no qual os aspectos técnicos e históricos e os significados socioculturais estão correlacionados.