
Executivo transforma experiência no mercado financeiro em ficção lançada pela Cepe Editora
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Keichi Maruyama faz sua estreia na literatura com um livro que foge ao lugar-comum, ao confrontar a ideia vigente de progresso. Através das personagens dos contos reunidos em Atemoia, vencedor do 8º Prêmio Cepe Nacional de Literatura (2025), ele traduz, e evidencia de forma crítica, o universo do mercado financeiro e as relações profissionais em uma ficção contemporânea. A matéria-prima da narrativa vem da trajetória de Keichi, paulista de 43 anos, que atuou durante 15 anos como executivo e consultor em grandes empresas. Atemoia ganha lançamento no dia 22 de maio, na Bibla Cafeteria e Livraria, Vila Madalena (SP), a partir das 19h30.
Para além da linguagem, Keichi Maruyama inova na estrutura textual, aproveitando este legado de quem participou da engrenagem corporativa, e lidou dos atendentes de telemarketing aos presidentes de empresas. Nos contos de Atemoia, estão representados vários tipos de pessoas, dos vaidosos altos executivos àquelas quase invisíveis, que sobrevivem em um mundo em que lucros e performances profissionais são priorizadas ante a qualquer conexão humana.
Ao longo de suas 240 páginas, o autor apresenta 11 protagonistas que estão interligados a um edifício comercial de fachada de mármore, à beira de um rio de uma grande metrópole brasileira. Assim, conhecemos Dora, a ascensorista que trabalha há duas décadas no elevador do condomínio, no conto Atemoia; vemos o etarismo e a disputa de poder entre Maria e Roberto, em Mundo entre parênteses; conhecemos o executivo que está hospedado há quatro meses em hotéis de luxo e se perde em alucinações; nos deparamos com Regi, funcionário do banco de seu Itamar, envolvido em uma fraude milionária, entre outras figuras ambíguas e enigmáticas.
Keichi Maruyama optou por fazer dos modelos empresariais o seu instrumento literário, acrescentando à narrativa acontecimentos como uma entrevista de emprego, uma sessão de feedback, reuniões improdutivas, além de um manual de telemarketing. “A violência que sustenta o sistema nunca é nomeada de frente — e surge, como tudo no livro, não como acusação, mas como o ápice de um conflito que não é mais possível evitar”, coloca.
A motivação para o livro vem do fato que a ficção brasileira contemporânea pouco explora o mundo do trabalho nas empresas. Neste sentido, o debate público sobre esgotamento profissional e o papel dos algoritmos nas decisões corporativas raramente encontram na ficção literária um interlocutor à altura. Atemoia é essa exceção. O conto sobre o manual de telemarketing nos recorda o que acontece quando otimizamos sistemas para os problemas errados. A intuição literária chega de maneira relevante e com precisão.
Ao mesmo tempo, é uma escrita que recusa o conforto da distância crítica. Isso porque não se trata de um livro sobre o capitalismo escrito de fora do sistema. Atemoia foi escrito por alguém que participou dessa engrenagem — e que, em vez de confissão ou acerto de contas, escolheu a ficção como o lugar em que a contradição pode ser sustentada sem apelar para resoluções acomodadas.
Para Diogo Guedes, editor da Cepe, a estreia de Keichi Maruyama na literatura nos leva a uma jornada estranha e algo incômoda. “Seguimos pela estrutura física de um prédio empresarial, com cada um dos seus andares servindo de mote para os contos. Ao mesmo tempo, caminha-se pelo terreno pantanoso do mundo dos negócios, das relações impessoais, das desumanizações e do absurdo de tudo isso. Keichi consegue, nesse belo e inventivo livro, remover o véu de naturalidade de elementos do mundo empresarial e capitalista, utilizando a linguagem, os protocolos e manuais, os tiques e os sadismos como ferramentas da sua ficção”, avalia Diogo.
Sobre o autor - Keichi Maruyama nasceu na cidade de Guarujá (SP), mas passou boa parte da infância e adolescência em Fortaleza (CE), vivendo atualmente em São Paulo. Com MBA pela London Business School (Inglaterra), atuou por 15 anos no mercado financeiro e em consultoria empresarial, trabalhando para empresas de capital aberto, fundos de investimento e reestruturações corporativas em vários países. É pós-graduado em escrita criativa pelo Instituto Vera Cruz. Atemoia marca sua estreia na literatura.
Perguntas para o autor
Pergunta - Como foi a emoção de ser vencedor do Prêmio Cepe com seu primeiro livro? Qual a motivação para escolher os contos?
Keichi Maruyama - A sensação foi de muita felicidade. Entendo que, para ganhar concursos com a relevância do Prêmio Cepe, além do mérito literário, uma obra necessita ressoar com os avaliadores, mostrar que tem relevância e originalidade. Nesse sentido, sou muito grato às pessoas que avaliaram e me agraciaram com o prêmio. Espero construir uma história muito bonita com Atemoia. Minha inspiração inicial foi trazer um olhar caleidoscópico do mundo corporativo, aproveitando minha experiência de vida e explorando a riqueza de formatos literários. Dessa maneira, a forma do conto possibilitou que eu desenvolvesse com mais liberdade minha proposta, variando temas (relações de poder, meritocracia, invisibilização de alguns empregos, empreendedorismo, ganância e dinheiro, férias, pressão psicológica, patrimonialismo, estafa, violência e repressão, apropriação etc.) e formatos (a sessão de feedback, o manual operacional, a entrevista de emprego, a apresentação de slides, o livro de autoajuda etc.) em relatos mais curtos e autônomos mas que guardam conexão entre si e ganham força na unidade do projeto como um todo.
Pergunta - O que te motivou a levar para o livro sua experiência profissional no mercado financeiro?
K. M. - Durante minha vida profissional, sempre encontrei na literatura um lugar de oposição à mentalidade dominante do trabalho corporativo, pautada pelo esforço extenuante, o sucesso transitório e a lógica obsessiva da maximização dos resultados. Samuel Beckett, Osman Lins, Elvira Vigna, Jon Fosse, Franz Kafka, W. G. Sebald, Clarice Lispector, são alguns exemplos dos muitos escritores que me acompanharam, provendo um apoio quase existencial em meus dias de trabalho. Além de vislumbrar outras realidades e consciências, as leituras de ficção me permitiam acessar a visão de mundo daqueles autores – muitas delas expressando as lacunas de nossa existência, insuficiências que, impossíveis de definir com palavras, por meio da ficção ecoavam uma tessitura tão viva quanto a própria realidade.
Num período recente de transição profissional, enquanto mudava de emprego e gozava de um período sabático, decidi então - por meio da escrita ficcional - dar forma à essência sombria e avassaladora do sistema de trabalho vigente. Tinha a aspiração de transmitir minha própria visão particular desse mundo, fazendo emergir algo de real - apenas exprimível pela literatura - sobre essa lógica financeira cada vez mais presente em todas as dimensões humanas.
Pergunta - A atemoia é uma fruta híbrida, desenvolvida para dar lucro. Seria para falar que tudo chegou a um patamar artificial?
K. M. - É uma possível interpretação: a fruta como representante de uma natureza manipulada para gerar mais lucro, símbolo de um mundo onde tudo é deturpado para se adequar a uma lógica de acumulação e maximização financeira. Outra análise: Dora encontra certo apoio naquela árvore, que representa uma natureza que mesmo em solo ermo é capaz de enraizar. No entanto, é uma natureza híbrida resultado de uma fabricação, mas que ainda assim não resiste ao avanço tecnológico.
Escolhi a atemoia por algumas razões (p.ex., o som da palavra, a aparência do fruto, sua história de fabricação, e outras que nem mesmo eu compreendo). Mas, ao mesmo tempo, acredito também que o leitor constrói, no decorrer do ato da leitura, sua própria obra, pois traz sua visão de mundo, suas sensibilidades e afinidades.
Pergunta - O livro investiga as relações invisíveis e suas conexões, entre a vida das pessoas e os textos?
K. M. - O primeiro conto gira em torno de Dora e da atemoia pois se trata do térreo do prédio, lugar em que a árvore está enraizada. Um dos leitores iniciais da obra interpretou a primeira história como um prólogo (onde não apenas o edifício é apresentado, mas também os diferentes personagens das outras histórias). Gosto dessa imagem em que prólogo e epílogo se sobrepõem gerando uma impressão de circularidade.
Serviço:
Lançamento de Atemoia, de Keichi Maruyama
Data: 22.05
Horário: 19h30
Local: Bibla Cafeteria e Livraria
Endereço: Praça Professora Emília Barbosa Lima, 58 - Vila Madalena, São Paulo
Preço do livro: R$ 60,00 (impresso)