
Livro reflete sobre o espaço que a fantasia e o sonho ocupam na vida das crianças
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Novo lançamento do catálogo infantojuvenil da Cepe Editora, o livro Manoel, o Sonho e o Vaga-Lume, de Raquel Trindade (texto) e Veridiana Scarpelli (ilustrações), abre espaço para uma questão contemporânea e incômoda: crianças às voltas com rígidas rotinas de compromissos, muitas vezes restritas a espaços fechados por força da insegurança ou falta de áreas livres, em que brincadeiras acabam dando lugar às telas. O livro é um convite para uma reflexão às vezes negligenciada: a importância do brincar na vida dos pequenos, assegurando a eles o direito à imaginação e à fantasia dentro do processo de desenvolvimento.
E essa é a vida de Manoel, protagonista da história, um garotinho que tem seus dias controlados pelos ponteiros do relógio. Acorda às 6h para ir à escola; das 12h40 às 19h, na casa de dona Alice, uma idosa que assume sua guarda provisória, almoça, faz o dever de casa e assiste TV até ser pego pelo pai, Rodolfo, na volta do trabalho. Em casa, janta e vai dormir.
Menino de cidade grande, Manoel mora em um prédio sem área de lazer, em um apartamento pequeno que divide com o pai. Na rua em que vive, esburacada e empoeirada, as casas são acinzentadas, o lixo se acumula nos terrenos baldios e árvores raquíticas resistem o quanto podem nas calçadas. No apartamento de dona Alice, onde ele passa boa parte da semana, o ambiente também é pouco estimulante. Sem crianças ou brinquedos, Manoel vê o tempo passar pela pequena janela da sala levando como pode sua vida de criança.
Até que o inusitado, na forma de uma borboleta azul, surge para quebrar a rotina enfadonha. Encantado com sua beleza, Manoel adormece e em seu sonho, a borboleta se transforma em uma fada azul com poderes de criar o que quiser com um pincel. Acreditando ter o mesmo talento, ele coloca em ação seu plano de transformar, com tintas e papéis, sonhos em realidade. A cada pintura caprichada, um desejo concretizado: óculos novos para o pai, um delicioso sorvete ou um amigo para dividir as tardes em brincadeiras. Até mesmo Rodolfo, indiferente ao entusiasmo do filho, é posto em xeque quando o desenho (e o surgimento) de um vaga-lume o remete à infância no interior e às escolhas que fez enquanto adulto que o levaram à cidade grande, afastando-se do que o fazia feliz.
“A história do Manoel surgiu a partir de uma necessidade pessoal de abordar o tema do sonho, seja ele onírico ou enquanto um desejo de viver algo. Nesse sentido, fui tocada pela seguinte pergunta: temos conseguido escutar os nossos sonhos, apesar da realidade muitas vezes dura, cinzenta e assoberbada da vida adulta nesse modelo de sociedade? Esse questionamento me levou até a minha infância, pois é na criança que encontramos a coragem para sonhar”, sinaliza Raquel Trindade.
Assistente social de formação, Raquel redescobriu sua conexão com a literatura durante a transição profissional (hoje atua como arteterapeuta e psicoterapeuta de abordagem junguiana). “Me dei conta da antiga paixão pela literatura e, com ela, fui levada a refletir sobre as questões que atravessam a infância e a adolescência não somente a minha, mas de tantos de nós”, afirma.
Para ela, são muitas as mensagens que o livro deseja passar. “Por um lado as crianças precisam de um espaço seguro para criar, sonhar e brincar. Nesse sentido, a narrativa denuncia os espaços e contextos sociais em que elas são cerceadas da experiência de uma infância saudável, como muitas vezes ocorre nas grandes cidades. Por outra perspectiva, fala da importância do adulto escutar a sua criança que sonha como forma de se voltar para si mesmo e questionar alguns condicionamentos sociais e culturais. Na história do Manoel, é o adulto, o pai do personagem, que retoma o seu caminho, a partir da escuta do sonho do filho”, assegura.
Serviço
Preço do livro: R$ 50,00