
Miró da Muribeca, poeta andarilho
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O escritor e biógrafo Wellington de Melo conversa com Bruna Beber sobre a vida e os versos do poeta recifense morto em 2022
Está no ar o 181º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Neste programa, o escritor Wellington de Melo conversa com a colunista Bruna Beber sobre o poeta pernambucano Miró da Muribeca, que morreu em 2022 e ficou conhecido por rodar o Brasil com suas performances e poemas sobre a vida urbana e a exclusão social.
Melo é o autor de Estou quase pronto: uma biografia de Miró da Muribeca, publicado em 2025 pela Cepe, a Companhia Editora de Pernambuco. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Doutor em teoria literária pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e professor do Colégio de Aplicação da mesma instituição, o recifense Wellington de Melo é também editor, poeta e romancista. Entre seus livros publicados, estão os romancesFelicidade (Patuá, 2017) eEmilio(Cepe, 2023) e a coletânea de poemasCaçador de mariposas (Mariposa Cartonera, 2013).
No programa, ele faz um passeio pela trajetória de Miró da Muribeca, com quem conviveu durante seus últimos seis anos de vida. No período, Melo realizou entrevistas e discutiu com o próprio Miró os caminhos da biografia.
A poesia, conta o biógrafo, demorou para entrar na vida de João Flávio Cordeiro da Silva, que ganhou o apelido “Miró” na casa de um amigo em comum, o artista Maurício Silva, e ficou conhecido como Miró da Muribeca por causa do bairro onde morava em Recife. “Na juventude dele, ele até então não tinha tido contato com a literatura”, diz Melo. Foi a partir do contato com integrantes de uma república de artistas que jogavam uma pelada no bairro de Santo Amaro — perto da comunidade de Miró — que o futuro escritor começou a se interessar pela poesia.
Para o biógrafo, esse conhecimento tardio conferiu aos poemas de Miró uma “expressão singular, não só pela poesia, mas também pela performance”.
A convivência com os moradores da república de artistas, acrescenta Melo, fez com que Miró furasse a “bolha” da exclusão social. “Ele teve contato com pessoas que estavam em outro círculo cultural”, explica o biógrafo. “A partir dessa aproximação, ele construiu outra coisa, a partir das vivências dele, das dores dele.”
Vários livros de Miró da Muribeca foram publicados de forma independente, entre eles Quem descobriu o azul anil? (1985), Ilusão de ética (1987) e Para não dizer que não falei de flúor (2004). Por pequenas editoras, ele publicou DizCriação (Andararte, 2012), Miró até agora (Interpoética/Fundarpe, 2013) e O penúltimo olhar sobre as coisas (Mariposa Cartonera, 2017).
A partir de uma pergunta da colunista Bruna Beber sobre como é para um poeta escrever a biografia de outro poeta, Melo conta que, logo no início do projeto, entendeu que não poderia contar a vida de Miró de maneira tradicional.
“Me contrataram para escrever essa biografia, [mas] eu não sou um jornalista, sou um escritor, sou um romancista. Então, se quisessem uma biografia puramente factual, baseada nos eventos, não teriam me chamado”, afirma.
A ideia foi então misturar histórias e poesia. A estrutura deEstou quase pronto: uma biografia de Miró da Muribeca, foge do que é convencional no gênero, construindo dois planos narrativos — um que acompanha a luta de Miró contra o câncer, outro mais geral sobre a vida dele — e explorando também a metáfora do “embarque, desembarque e embarque” num ônibus, cenário que inspirou poemas de Miró. Num deles, por exemplo, o poeta escreveu: “Janela de ônibus é retada pra butá a gente pra pensar,/ inda mais quando a viagem é longa”.
Melo ainda conta no episódio o que considera um dos momentos mais emblemáticos e sensíveis de seu convívio com o poeta: quando Miró lhe pediu para comprar uma língua de sogra (o brinquedo de papel enrolado que infla ao ser soprado) para fortalecer os pulmões. “Eu achei aquilo tão tocante no sentido de que é de fato a metáfora para o poeta que [Miró] é”, diz o biógrafo, que compara o uso inusitado do brinquedo à própria poesia. “A poesia, essa coisa inútil que não serve para nada, como diria Manoel de Barros, mas que serve para muita coisa.”
O bate-papo também tem outros momentos de emoção, como lembranças da presença de Miró em encontros literários pelo Brasil e da sua passagem pelo Instituto Raid, que oferece tratamento a dependentes químicos em Recife — o poeta procurou a instituição para tratar da sua dependência de álcool.
Wellington de Melo ainda ressalta que, embora Miró seja muito lembrado por suas performances, seus poemas ficaram na memória de quem o conheceu e atraem cada vez mais leitores. “Se a poesia dele fosse só o corpo, dependesse só do corpo, com a ruína do corpo, com o desaparecimento do corpo, a poesia dele desapareceria, e não é assim”, conclui.
Em um perfil de Miró da Muribeca publicado em 2021, na edição #48 da revista dos livros, a jornalista Erika Muniz contou como o poeta saiu da periferia recifense para se tornar referência na poesia urbana nacional.
“Quem já assistiu a Miró se apresentando, interagindo com o público ou vendendo seus livros debaixo do braço em ruas ou eventos literários do Recife, de São Paulo ou outra cidade do país, com o seu carisma e performance inesquecíveis, deve imaginar como ele próprio colaborou para que esses números fossem alcançados”, escreve Muniz.
Fonte: Revista Quatro Cinco Um