Padre Daniel Lima: Lira dos sessentanos
Compartilhe esse post
Em abril de 2012, falecia um poeta recém-apresentado ao mundo, aos 95 anos de idade. Padre Daniel Lima havia ficado conhecido um ano antes, quando uma compilação de poemas de sua autoria foi lançada pela Companhia Editora de Pernambuco e consagrada com o Prêmio Alphonsus de Guimarães da Fundação Biblioteca Nacional. Até então, poucos tinham ouvido falar do sábio e irreverente sacerdote católico, que tanto teria a ensinar a nossa sociedade partida entre céticos e religiosos.
Para homenagear o poeta com mais de 20 livros inéditos, entre literários e filosóficos, a escritora Luzilá Gonçalves resgatou uma entrevista realizada com ele, à época do seu aniversário de 60 anos. Nela, Padre Daniel Lima fala sobre a experiência do envelhecimento e a escolha pela reclusão. Luzilá editou a conversa no formato de um depoimento corrido, como é possÃvel conferir a seguir:

Completo hoje 60 anos, 2 de maio de 1976, estou velho, mas não sou velho, vivi muito para dentro, quase nada para fora. Minha biografia é silenciosa demais e muito horizontal.
Eu, visto por mim, não me conheço bem. Vivo a fazer esforço cada dia para ir me conhecendo melhor, não sou um sujeito lógico, creio que nem mesmo gramatical. Seria quase impossÃvel deduzir algo de mim, pois sempre fui desconexo. Sou uma palavra que saiu do dicionário, que não se afasta totalmente dele, mas não se ajusta à frase de que faz parte, que se choca com o verbo de que é sujeito, que não arreda pé dessa posição de atrapalho. Sou, pois, um anacoluto, para me explicar em termos de linguagem.
Sei, no entanto, que me pareço muito comigo, embora às vezes me torne apenas uma espécie de compadre à moda antiga, bem vindo à casa, bom de prosa e de mesa, ameno na convivência. Sou um amigo que me visita com frequência e quando vai embora me deixa sem mim e sem saudades.
Na imaginação, poucos me passam, porém, à frente. Já assaltei o Banco do Brasil e a Caixa Econômica não sei quantas vezes, já matei uns três presidentes da República de infarto do miocárdio e até matei um que já houvera morrido, Floriano Peixoto, e tudo sem remorso. DifÃcil achar um deputado vivo na minha imaginação, um ou outro ressuscitado provisoriamente, senador nem se fala, e tudo sem remorso.
Aliás, preciso dizer que não sou sujeito de remorsos, mas de arrependimentos e muitos. O arrependimento resulta, como o remorso também, de uma tomada de consciência de um erro que se cometeu, mas, diferentemente do remorso, o arrependimento é seguido de uma decisão firme de reparar, no possÃvel, os danos consequentes, sobretudo de evitar cometer de novo esse erro. O remorso, como a palavra lembra, é esse ficar remoendo interiormente o mal cometido, como um chiclete ético, remordendo o que se passou, remoer, remorder, morder de novo, mastigar sem engolir, atrapalhando o presente, tornando desgostosa a vida e não mudando nada. Remorso é doença, incapacidade de assimilação dos fatos consumados e de transformá-los, isto sim, como arrependimento, em experiências positivas.
Fisicamente, nem quero demorar-me muito, para não me desgostar demais. Sinto que vou me tornando ruÃnas, não gloriosas como as do Coliseu ou do Egito Antigo ou da Grécia, mas ruÃnas de casa velha, tapera. Sou mais para gordo do que para gorducho, 85 quilos, arbitrariamente distribuÃdos; já fui magro, muito magro quando jovem, mas acho que o tempo, além de outras bruxarias e metafÃsicas, é um processo de engorda. Sou mÃope desde menino, a ponto de que esperava estar cego totalmente aos quarenta, mas continuo vendo, só que, felizmente, do jeito que quero, muita fumaça, mais para nevoeiro, depois muita luz, tudo distante ou perto, meu controle remoto funcionando, mudando de canal conforme o programa, o enredo da novela, o modo de ver mais de vista cansada que de miopia.
Gosto de mim até certo ponto, isso é, não a ponto de querer morrer por mim, seria pedir demais, não valho tanto, sinceramente. Por isso, nunca seria um suicida e só seria um mártir se não houvesse saÃda.
Sempre, desde menino, quis ser santo, mas sempre impus tantas condições que acabei desistindo, embora não retirasse a minha candidatura. Minhas condições: não sair de casa, não ser canonizado e beber minhas pequenas doses de uÃsque, exercer em plenitude o direito de xingamento, não ser mártir ou, se fosse obrigado, que me fizessem morrer com uma overdose de cocaÃna, não obedecer senão a Deus, o que para mim significa ficar livre assim e fazendo sempre eu aqui, os outros lá, todos solidários, se amando, se sofrendo, se ajudando, unidos, mas separados, melhor unidos porque separados. Coisa demais de simples, porque o papa não aceitaria.
Cada ano, ao fazer o balanço de vida, me sinto diferente, embora nem saiba ao certo em que mudei. O rosto cai, os olhos caem, caem as orelhas, cai tudo. Se você era bonito, sente que está ficando feio, se você já era feio, sente que está ficando horroroso, toma um susto e se afasta indignado do espelho. Se for do tipo depressivo, começa a conjugar o verbo ser no passado, e diz Eu fui, e passa a ser, daà por diante, um pretérito perfeito. Mas se for o sábio que a idade deveria fazê-lo, passado o susto inicial você certamente diria Eu sou, e ao dormir, Eu serei. Alegre por estar chegando aos pedaços, mas chegando. Estando velho, sim, mas não sendo velho, no sentido rabugento da palavra.
Estou hoje com 60 anos. Quando eu era menino e via alguém com essa idade ou suas cercanias, era como se estivesse fazendo turismo no Egito Antigo e admirando as pirâmides. Hoje que a pirâmide sou eu, já sinto – não o marido de Jacinta - que a vida vai passando tão depressa para o corpo, que a alma quase não tem tempo de se arrumar direito e acompanhá-la.
Felizmente, cedo tomei consciência de que cada um tem obrigação de se arrumar com seus cacarecos, com seus equipamentos, e dentro de seus limites e suas condições, fazer da existência recebida a vida desejada, não fabricar asas de cera para não cair como Ãcaro, no mar. A filosofia significou isto para mim: o jeito de encontrar o meu jeito de viver bem com as coisas que conquisto. Nesse ponto, acho que sou filósofo, fui até professor de Filosofia, mas sempre com a convicção de que filosofia não era nada daquilo que eu estava ensinando, era muito mais do que tudo aquilo. Que a filosofia verdadeira não era coisa que se ensinasse, pois era a vida, a vida de cada um, aprumada não por gente de fora, mas pelo único que está no seu centro, assim falsamente aluno do falso professor e falsa filosofia. Filosofia não se ensina, ensina-se a filosofar, isto é velho, mas a gente nunca aprende e aceita ser professor de Filosofia. Diz Gabriel Marcel: Ensina-se a questionar cada um a si mesmo, a procurar no seu intimo um caminho, vivendo as interrogações e assim transformá-las em respostas, e por meio das dúvidas sempre suscitadas, evitando que as certezas se cristalizem. Estudar filosofia é coisa que se deve fazer sabendo sempre que logo depois é preciso esquecê-la como sistema, para recuperá-la como vida.
A vida da gente está sempre em processo, não para nem quando a gente está parado, dormindo, e pode suceder que gente não acompanhe o movimento da própria vida e fique atrás de si mesmo. A vida mudou em nós e nós não tomamos conhecimento das mudanças que se deram em torno de nós, e ficamos perdidos do resto do pessoal, pitorescamente defunto, falando coisas mortas, contemporâneo do próprio passado. E isto eu acho a coisa mais desoladora do mundo, tão triste que o jeito é me rir, rir muito, o riso é filho do exagero, e se a tragédia é muito carregada, torna-se cômica. Se Romeu bebe litros de querosene para morrer, a gente termina achando graça. Tudo isto a propósito da vida em incessante movimento.
Vejam só, estou fazendo 60 anos, o tempo passa, diz o povo. Não passa, me ensina a minha filosofia, não passa simplesmente porque eu vou tentando caminhar com ele, no seu ritmo. Se você vai caminhando com um amigo, no mesmo passo dos dois, seu amigo não passa, vocês compassam, porque vamos juntos, na mesma conversa, na mesma velocidade, no mesmo ritmo. Vocês ficam. É ai que situo a diferença e faço a ligação dos opostos. Andar com seu tempo, sintonizar com seu mundo as invitáveis transformações do seu meio num incessante processo de assimilação da cultura de sua época, é isto que a filosofia significa para mim. Um jeito de mudar, ficando. Modificar é isso. Crescer, nesse sentido, só poderá entender-se cumulativamente, não por excludência. O que vivi, o que senti, o que pensei, vinte, trinta anos atrás, não passou, está aqui comigo, caminhando no meu compasso, cochilando, adormecido talvez, mas vivo e dialogando, sustentando a estrutura, dando ao de hoje a dimensão exata que tal não seria atual e de agora se não tivesse agido assim ao longo da caminhada no tempo. Sentir que o passado forma com o presente uma unidade integrada qualitativamente nova. Isto é o que eu chamo a sabedoria do existir, contemporâneo de tudo, de todos, sabendo achar um lugar para tudo que acontece, para que na fase que somos, na túnica que vestimos, não haja costura.
À medida que vou chegando ao fim de minha existência, mais amiudamente reflito que nada passou, tudo fica transfigurado numa renovação maravilhosa dos significados que mais emocionante e mais bela tornam a vida. O passado não é um álbum de lembranças, no máximo seria um álbum de recordações. Recordar é uma forma de lembrar, renovando pelo coração as coisas idas. Recordar, cor ação. Então, recordar é lembrar com sensibilidade, transfigurando pela nova visão de hoje, aquilo que o passado nos deixou de fecundo. Recordar o passado que ficou e que é alguma coisa que dá à vida o seu tempero de agora, porque a gente vai descobrindo a cada passo que tudo tem sentido, que por se esquecer de que a vida é uma linguagem, a gente se apressou talvez, em dizer que era negativo o que só adiante pode ser entendido em sua verdade positiva.
Por isso, a velhice me parece a fase mais importante da vida, a mais bela de todas. “Viverás longamente” é promessa e dádiva de Deus, e prêmio que alguns recebem, sabe-se lá por que, e nem merecem. A idade da sabedoria, vale dizer, da lúcida aceitação de todas as diversidades, o caos tornando-se cosmos, e em que trágicos palhaços, protagonistas e meros figurantes, dançam e se dão as mãos na mesma divina comédia de que nós somos participantes.
Moro só, melhor, moro sozinho, que é um diminutivo de só, mas ao mesmo tempo um jeito maior de estar só. Só, sozinho, mas não coitado, antes sossegado, feliz, sem prazo, sem relógio, sem telefone, esse instrumento grosseiro que invade ou tenta invadir a nossa privacidade. E isto não é por orgulho, por misantropia, por rabugice ou por vontade de chamar atenção ou coisas assim, simplesmente por preferência, achei mais gostoso. Sinto-me mais à vontade, não esbarro em ninguém nos corredores da casa, não tem ninguém a pedir desculpas. Às vezes me sinto tão sozinho que sinto a casa, as paredes, as cadeiras, e aperto a minhas próprias mão para cumprimentar-me, ter certeza de que existo. Não exagero. Há fases em que a solidão é tão sozinha que se você falar se assombra consigo mesmo e é capaz de sair correndo feito doido. Outras vezes você precisa de se sentir ouro. É a tal fase em que você se aperta as próprias mãos e diz: Bom dia. Mas isto é só no começo, depois a gente se acostuma. Há muito que a solidão faz parte de meu mobiliário e quando estou muito enfadado e carente, me duplico. Eu e mim. O mim sou eu pensando, os dois se dão bem, discutem mas se respeitam, dormem até juntos, mas sem nada disto que vocês estão pensando. Que faço? Faço nada. Sim. Fazer, não faço nada, por que? Porque não tenho tempo. Leio muito. A curiosidade de saber me adoece, mas me sustenta. Sou um drogado de leitura. Perdi parte da vida lendo, que é uma forma quase fantasmagórica de ser. O sujeito se torna mais um ectoplasma do que um vivente.
Quero deixar claro que escolhi a solidão, mas nunca o isolamento. Sou muito povoado, sou doido por gente, gosto imenso de amigos, não me posso imaginar sem ele, que, se me limitam, é para que eu não me evapore. Preciso vê-los, ouvi-los, admirá-los, saber que eles são os meus amigos, mas que não os tenho nem eles a mim. Somos.
Essa solidão, como área privilegiada de comunicação, essa solidão, pausa na música, intervalo e ao mesmo tempo ponte entre o silêncio e o gesto, em ter a minha unidade e o ser processional que sou, essa solidão assim entendida é outra das ocupações a que me venho dedicando, faz justamente uns treze anos. Administrar isto exige sutileza, flexibilidade, uma consciência ética segura de que seja capaz de ir à quele perigoso ponto fronteiriço em que mais um passo, um pequeno descuido, um erro de gramática e se cai na mentira, na hipocrisia, no disfarce, na falta de caráter. Os amigos podem perceber isto. Creio que tenho me saÃdo bem nesse jogo de relações em que, para me achar melhor, me perco sempre. Ainda não cheguei aonde quero, ainda tenho receio de radicalizar e me tornar um isolado rabugento. Sei, no entanto, que ainda posso diminuir, o tamanho de minha cela, restringir o número de fichas de visitantes ao meu modo pessoal, rarear-me um pouco mais, para querer bem com melhor qualidade.