
Projeto de incentivo à leitura da Cepe Editora leva escritores e livros para o sistema carcerário
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Criar conexões entre pessoas e livros, compartilhando experiências de como a literatura impacta trajetórias pessoais, é a proposta do projeto Reescrevendo Novos Caminhos, ação da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) focada nas unidades do sistema prisional de Pernambuco. Realizada em parceria com a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (SEAP), a iniciativa já foi levada ao Centro de Observação Criminológica e Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), em dezembro passado, e agora chega à Penitenciária Juiz Plácido de Souza (PJPS), em Caruaru. Até o final do ano, deverá cumprir um extenso calendário atendendo penitenciárias e presídios localizados em todas as regiões do Estado.
O Reescrevendo Novos Caminhos é uma ação que tem nas obras literárias - e na vida de quem as escreve - um ponto de empatia junto à população carcerária. Autores da Cepe levam para rodas de conversas relatos impactantes e seus livros são trabalhados dentro da proposta do Programa Remição pela Leitura, que prevê a redução de quatro dias nas penas para cada título lido e resenhado. Em paralelo, a Cepe reforça ainda os acervos das bibliotecas internas com a doação de cerca de 50 títulos, nos mais variados gêneros literários, aumentando o estímulo à leitura.
O músico e ativista social Cannibal, vocalista e baixista da banda Devotos, autor do livro Música para o povo que não ouve, vem participando das primeiras edições do projeto. “É uma grande troca porque ao mesmo tempo em que falo sobre a minha vida, tenho a oportunidade de conhecer muitas histórias. Relatos de pessoas, negras e vindas da periferia, assim como eu, mas que não tiveram as mesmas oportunidades que encontrei. Usar a literatura como instrumento é muito importante porque ela nos permite compartilhar conhecimento” assegura.
Na Penitenciária Juiz Plácido de Souza, acompanhando a palestra de Cannibal, o reeducando Maciel Jorge deu o seu depoimento sobre o impacto da leitura em sua vida para um auditório lotado. “Ler um livro é um incentivo que permite a redução em quatro dias da minha pena para cada obra lida, mas o que eu não imaginava é que as páginas dos livros ocupariam, na verdade, a minha alma. Percebi que a lógica mudou, não estava mais contando página para sair da prisão, mas para sair de mim mesmo. Através das palavras, viajei para lugares que nunca pisei e conheci personagens que tinham dores parecidas com as minhas", assegurou.
Cordel - Saber da presença de Cannibal na penitenciária inspirou os detentos Sérgio Brito e Éder Bezerra a produzirem um cordel sobre a trajetória do músico pernambucano. “Eu tinha largado a escola aos 11 anos de idade e voltei a estudar já aqui na unidade, aos 36 anos. Cheguei desacreditado, com medo até de pegar uma caneta, achando que não iria mais aprender nada. Até que conheci o cordel nas aulas. Através da escrita, as portas se abriram para mim. Conhecer a história de Cannibal, que saiu da periferia e lutou contra muito preconceito, foi um momento especial. Saber sobre o seu livro, e o desejo de que as pessoas leiam, nos ensina muito sobre a pessoa que ele é”, afirmou.
Para o presidente da Cepe, João Baltar Freire, o objetivo é levar o projeto para todas as unidades do sistema carcerário, permitindo amplo acesso aos livros da editora. “O fato dos internos estarem se conectando com o mundo da leitura não traz apenas o benefício da redução da pena. Acredito que o mais importante será o tempo que passarão lendo. Isso permitirá um ganho maior, que é o crescimento interno de cada um enquanto pessoa”, destacou.
O diretor da PJPS, Romero Timóteo, vê na parceria um reforço importante no campo da inclusão. “Estamos muito motivados a trabalhar para que mais pessoas tenham suas vidas mudadas por ações do tipo. Estudos indicam que quanto mais oferecemos qualificações, seja assegurando acesso à leitura ou ao trabalho, menor é o índice de reincidência”, garante. A diretora da Escola Estadual Gregório Bezerra, que funciona dentro da Penitenciária Juiz Plácido de Souza, Luciene Nascimento, também é uma entusiasta. “Essa é uma ação louvável porque vocês não imaginam o impacto da presença do autor, que só faz aumentar o interesse pela leitura”.
Foto: Leopoldo Conrado Nunes/Cepe