
Romance de Leonardo Tonus une realidade e ficção ao abordar a atual crise migratória
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Antes que as palavras te esqueçam (Cepe Editora) é o romance de estreia do
premiado autor, que ensina na Universidade de Sorbonne
A crise migratória que hoje acirra disputas políticas e culturais em diversos países pauta Antes que as palavras te esqueçam (Cepe Editora), primeiro romance do professor, poeta e escritor Leonardo Tonus. Construído em forma de cartas, o livro narra a procura de L., um brasileiro, pelo amigo Jamal, um refugiado afegão em Berlim e a quem as correspondências são endereçadas. De nenhuma delas o remetente recebeu respostas. Ao falar de sua busca, L. conversa consigo mesmo sobre a realidade dos imigrantes, com suas dificuldades de fala e solidões, e aborda temas historicamente sensíveis à Alemanha, como o nazismo e o comunismo. O lançamento do livro integra a programação oficial da XV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco e acontecerá no sábado, a partir das 14h, no Espaço Diálogos. Na ocasião, o autor participará de um bate-papo com o editor da Cepe Editora, Diogo Guedes.
O romance é organizado em 24 cartas, datadas com dias de setembro a dezembro. O ano das correspondências não é especificado, podendo bem ter sido 2024, quando a Alemanha repatriou o primeiro grupo de afegãos após a retomada do poder no Afeganistão pelo Talibã. Na ficção, Jamal seria um dos repatriados. Sua detenção é narrada num texto cortante. "Você estava sozinho, ouvindo música, quando eles chegaram. Tirou os fones de ouvido e permaneceu sereno. [...] sua calma era desconcertante", descreve. E detalha: "Mantinha uma expressão ausente, alheia à gravidade da situação. Seus olhos não mostravam surpresa nem raiva. Havia neles apenas um tipo de alívio silencioso, como quem carrega há tempos a certeza de que aquele momento chegaria."
Paulistano, Tonus mora há mais 30 anos em Paris, onde ensina Literatura Brasileira na Université Sorbonne Nouvelle. É um expatriado voluntário. "A inspiração para este romance nasceu do cruzamento entre as pesquisas que, há mais de vinte anos, desenvolvo sobre a representação dos processos migratórios na literatura e nas artes em geral, e do acaso dos encontros que a vida me ofereceu", explica. No entanto, segundo ele, o livro não se trata de uma narrativa que se possa classificar como biográfica ou autobiográfica ou autoficcional. O autor assegura que buscou construir uma obra que se movesse deliberadamente nas fronteiras entre a realidade e a ficção. Isso porque tais fronteiras são lugar "onde a imaginação pode traduzir experiências coletivas e individuais de forma muito mais intensa do que o simples registro factual."
A realidade e a ficção atravessam os percursos de L. e de Jamal. De Jamal, o autor das cartas puxa fios que levam às origens do amigo, aos possíveis itinerários do afegão entre a cidade natal, Mazar-e-Sharif, e Berlim, e às conquistas e tristezas na Europa. Relacionado a si próprio, L. descreve lugares onde esteve e emoções sentidas ao andar na capital alemã e arredores; toca nos horrores do Holocausto e dos bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). "Estar neste país tem um pouco disso, meu amigo. É caminhar pelas ruas sabendo que a cada esquina irá tropeçar em seus horrores. Não há como esquecê-los, nem ignorá-los. Por mais tênues ou inaudíveis que sejam, seus gritos ecoarão para sempre, em todos os cantos", conclui.
Para o editor da Cepe, Diogo Guedes, Antes que as palavras te esqueçam é uma obra indispensável para se compreender os dias atuais, de um mundo em conflitos barulhentos e silenciosos. "Em tempos de crise migratória e desumanização, a estreia de Leonardo Tonus no romance é uma narrativa ainda mais essencial e sensível", considera. Guedes afirma ainda que o livro reforça a condição talvez sempre estrangeira dos seres humanos, utilizando para isso uma prosa límpida e profunda.
Além da XV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, o romance terá um segundo lançamento no Recife. Acontecerá no dia 06 de outubro (segunda-feira), às 19h, dentro da programação da Conferência Viver e Escrever a Migrância (Vivre et écrire la migrance), na Aliança Francesa, localizada no bairro do Derby. Outros quatro lançamentos estão programados. Dois serão no Brasil: Rio de Janeiro, 28 de outubro, na Livraria da Travessa, na Barra da Tijuca, e São Paulo, no dia 29 de outubro, na Livraria da Travessa, em Pinheiros. O autor também lançará a obra em Paris, em novembro, e em Berlim, em dezembro.
Sobre o autor
Antes que as palavras te esqueçam é o quarto livro de Leonardo Tonus, sendo o primeiro com o selo da Cepe Editora. Os três primeiros títulos foram as coletâneas poéticas: Agora vai ser assim (2018) e Inquietações em tempos de insônia (2019), ambas pela Nós Editora, e Diários em mar aberto (Folha de Relva Edições, 2021). Este último foi traduzido para o alemão e publicado pela Editora Hagebute Verlag, o que rendeu à edição o prêmio Bayerns Beste Independent Bücher 2023 e a indicação de semifinalista do Prêmio Jabuti de 2025 na categoria Melhor livro brasileiro publicado no exterior. Por duas vezes, Tonus venceu o Grand Prix Poésie RATP (2023 e 2024) e teve o poema Un geste (Um gesto) exposto no metrô da capital francesa. No campo acadêmico, publicou artigos sobre autores brasileiros contemporâneos e antologias literárias.
Entrevista/ Leonardo Tonus
O que o levou a escrever um romance?
Tudo começou em 2022, no âmbito de uma residência artística promovida pela Embaixada de Portugal em Berlim. A proposta era simples e, ao mesmo tempo, desafiadora: escrever um texto em prosa tendo a cidade como pano de fundo. Regressar a Berlim significava também regressar a uma parte da minha própria história. Nos anos 1990, vivi na Alemanha, quando a queda do Muro ainda reverberava em cada esquina. Desde então, esta cidade — e este país — nunca deixaram de me fascinar. Com o tempo, aprenderam a carregar as suas cicatrizes à flor da pele, exibindo-as no cotidiano, transformando dor em presença. Como diz o narrador do meu romance: caminhar por Berlim é sempre tropeçar em cicatrizes. A cada passo, uma lembrança: a guerra e as suas vítimas; o Muro que, durante décadas, separou famílias e amigos; ou ainda, mais recentemente, o silêncio inquietante de tantos migrantes que aqui buscam refúgio. Por outro lado, para dar corpo ao projeto, decidi perder-me pelas ruas da cidade. Caminhei sem mapa, apenas com os olhos atentos. Entre cafés e pátios internos, observei os gestos mais simples dos seus habitantes. Pouco a pouco, deixei que as camadas de Berlim se revelassem até se inscreverem em meu próprio corpo. Assim nasceram as histórias que relato neste romance: algumas quase apagadas pela memória coletiva, outras, pulsando dolorosamente, escancaradas a quem as quiser ouvir.
Qual a razão de publicá-lo pela Cepe?
Já há algum tempo, acompanho em minhas pesquisas acadêmicas a cena editorial brasileira, e a Cepe sempre despertou grande interesse de minha parte. Afinal, mais do que uma simples editora, a Cepe é, hoje, um verdadeiro patrimônio da nossa cultura. A coleção Pajeú, as diversas publicações sobre o frevo, sobre a história do Recife e de Pernambuco, são testemunhos do seu esforço contínuo em manter viva a nossa memória artística, científica e popular. A presente publicação é fruto de uma chamada de originais promovida pela editora. Na ocasião, a Cepe foi a única editora à qual confiei este trabalho. Hoje, sinto-me honrado com a resposta positiva e, sobretudo, por ver este romance publicado ao lado de escritores e escritoras que tanto admiro, como Hermilo Borba Filho, Cida Pedrosa, Marcus Accioly e Raimundo Carrero, para citar apenas alguns entre tantos nomes.
De onde vieram as inspirações para os temas centrais do romance?
A inspiração para este romance nasceu do cruzamento entre as pesquisas que, há mais de vinte anos, desenvolvo sobre a representação dos processos migratórios na literatura e nas artes em geral, e do acaso dos encontros que a vida me ofereceu. Por um lado, a narrativa aborda as dificuldades enfrentadas, ontem e hoje, por indivíduos em situação de expatriação: o sonho de um eldorado nunca alcançado, os impasses da adaptação em um país estrangeiro, as marcas que o exílio inscreve em suas vidas. Essas vivências atravessam o percurso da minha personagem principal: um jovem afegão de apenas quinze anos, que percorreu mais de cinco mil quilômetros em busca do sonho de uma vida em liberdade na Alemanha. Por outro, o romance evoca o sentimento de inxilamento de pessoas confrontadas com momentos trágicos da nossa história, e que as tornaram prisioneiras em sua própria terra. É o caso do último fugitivo do Muro de Berlim, cuja trajetória relato no livro, ou ainda da memória do escritor alemão Erich Kästner. Ora, embora enraizadas em tempos e lugares, por vezes distantes do leitor brasileiro, tais histórias encontram forte ressonância no presente. O que vivem as minhas personagens, tantas pessoas ainda o vivem hoje. Basta olhar ao nosso redor: as guerras que não cessam, os deslocamentos forçados que se multiplicam, os afogados no Mediterrâneo, o silenciamento e a censura impostos a artistas e escritores. São ecos de um passado que, em vez de se apagar, insiste em atravessar o nosso tempo e o nosso cotidiano.
Há algum vínculo pessoal nas inspirações?
Minha vivência pessoal não poderia deixar de atravessar as histórias que aqui relato. Descendente de imigrantes italianos e portugueses, também conheci, na pele, as amarguras e as alegrias do processo de expatriação. Há mais de trinta anos vivo e trabalho na França e, ao longo desse tempo, aprendi a conviver com este sentimento ambíguo: de um lado, a riqueza de habitar entre culturas diferentes; de outro, o silêncio doloroso de uma exílio (mesmo quando voluntário, como no meu caso) que me habita e me acompanha todos os dias: na distância com a minha língua materna, com os hábitos que, lentamente, se tornam estranhos, na memória que nunca se ajusta por inteiro ao novo lugar. Essa experiência me ensinou que o exílio não é apenas deslocamento geográfico, mas também um estado de espírito. Esse olhar estrangeiro, deslocado, atravessa minha escrita e explica, em parte, a voz pessoal que se insinua neste romance. Contudo, não se trata de uma narrativa que se possa classificar como biográfica, autobiográfica ou autoficcional. Pelo contrário, busquei construir uma obra que se movesse deliberadamente nas fronteiras entre a realidade e a ficção ; território fértil onde a imaginação pode traduzir experiências coletivas e individuais de forma muito mais intensa do que o simples registro factual. Porque, afinal, muitas vezes, apenas a ficção é capaz de dar forma àquilo que existiu e que, no fundo, desejaríamos que nunca tivesse existido.
Serviço
Lançamento do livro Antes que as palavras de esqueçam, de Leonardo Tonus
Quando: 04 de outubro, sábado
Hora: 14h
Onde: Espaços Diálogos da XV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco
Endereço: Centro de Convenções de Pernambuco, Avenida Professor Andrade Bezerra, s/n, Salgadinho, Olinda.
Preço do livro: R$ 60,00 (impresso)