
Tupi-Maíra: livro fala sobre respeito à diversidade cultural a partir do olhar de duas crianças
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Primeiro livro bilíngue (português-francês) do catálogo infantojuvenil da Cepe Editora, Tupi-Maíra, de Guillaume Flor, com ilustrações de Renato Alarcão, inspira-se em um fato histórico - a aliança firmada entre franceses e tupinambás, no século 16 - para construir uma narrativa ficcional que aborda valores como a amizade e o respeito à diversidade cultural a partir da perspectiva de duas crianças. O evento de lançamento acontece no dia 16 de maio, às 15h, na Livraria Blooks de Niterói (RJ).
Vindas de mundos distintos, Lucas e Kaluanã, personagens centrais da história, ambos com dez anos de idade, ocupam posições de prestígio em seus meios sociais. O primeiro, é filho do almirante Nicolas Durand de Villegagnon (1510-1571), que chegou ao Rio de Janeiro, em 1555, com a missão de fundar a França Antártica, nas imediações da Baía da Guanabara (RJ). O segundo, primogênito de Cunhambebe, chefe indígena tupinambá (nação que ocupava extensa área litorânea), que liderou a resistência contra a colonização portuguesa.
Acompanhando seus respectivos pais em expedições - seja cruzando florestas nativas ou navegando pelo Oceano Atlântico - os meninos se conhecem em novembro de 1555, com a chegada das embarcações francesas. Tornam-se amigos, apesar das barreiras linguísticas, e vivem uma experiência mística, quando vislumbram um futuro de paz em que franceses e tupinambás convivem na mesma aldeia.
Um dos recursos do livro para aproximar realidades distintas, destacando as similaridades entre os dois personagens, é o uso do mesmo texto tanto para revelar o ponto de vista de Lucas como o de Kaluanã. “Ao criar um paralelo entre a vida dessas duas crianças, o texto ressalta o olhar infantil, sempre preocupado em encontrar pontos de contato e irmandades do que em se deter nas diferenças que tanto chamam a atenção dos adultos”, afirma o editor da Cepe, Diogo Guedes.
Tupi-Maíra é o primeiro livro do francês Guillaume Flor, que viveu no Brasil entre 2011 e 2015. “Eu me interesso pela história compartilhada entre o país em que moro e a França. Durante as primeiras viagens dos exploradores ao Brasil, os franceses deixavam crianças com os povos indígenas para aprenderem seus idiomas, para que pudessem se comunicar melhor quando retornassem anos depois. Isso era chamado em francês de ‘truchement’. O objetivo era estabelecer um bom entendimento para comercializar e se estabelecer de forma pacífica. Esse fato histórico me inspirou a criar uma amizade entre uma criança francesa e uma criança tupi”, assegura.
Jornalista com mestrado em História, Guillaume Flor mora em Paris, mas já passou temporadas no Peru e agora se prepara para migrar com a família (ele e a esposa são funcionários da Aliança Francesa) para Madagascar (África). “Sempre fui um grande defensor da diversidade. Não entendo por que as pessoas não conseguem se dar bem quando são diferentes. Acredito que há uma riqueza real em aprender com os outros, especialmente quando são diferentes. Para mim, o interculturalismo é uma força e não exclui a igualdade”, destaca.
Professor, ilustrador, designer gráfico e artista visual com sólida carreira internacional, o carioca Renato Alarcão tem trabalhos publicados em veículos nacionais e internacionais, entre eles, o The New York Times e Le Monde Diplomatique. Ilustrou dezenas de livros infantis e juvenis no Brasil e nos Estados Unidos, como Madiba, o menino africano (Cortez Editora, 2011), indicado ao Prêmio Jabuti de Ilustração em 2012; A Coisa Brutamontes (Cepe, 2018) e Planting Hope (Atheneum Books for Young Readers, 2024), biografia ilustrada de Sebastião Salgado considerada pelo The New York Times como o melhor livro infantil ilustrado de 2024.
Tupi-Maíra é o seu primeiro projeto pessoal. Foi apresentado à Cepe pouco antes da pandemia de covid-19 colocar o mundo em suspense, e agora publicado. “Desejava deixá-lo nas mãos de um editor que pudesse trabalhar conosco a história, dar à ela um polimento, ao invés de simplesmente enviá-la direto para a gráfica”, sinaliza. Para Renato Alarcão, a proposta construída com Guillaume Flor marcou de maneira especial uma etapa de sua jornada. “O livro chegou em um momento muito específico da minha vida, quando eu estava fazendo um ano sabático, uma pausa na minha carreira artística, me dedicando quase que exclusivamente a estudar (inclusive o francês), ler, dar aulas, cuidar da minha cabeça. Tupi-Maíra fez com que eu voltasse a gostar de ilustrar livros”, assegura.
Ilustrações - Feitas em aquarela e grafite, as ilustrações, de grande impacto visual, asseguram ao livro uma segunda camada narrativa. “Tecnicamente são muito simples, mas acredito que as ilustrações se destacam pelo desenho em si, pelas composições, pelo movimento e porque possuem algo de cinematográfico. Assisti a muitos filmes e fiz esboços a partir de cenas pausadas na tela. Eu quis que a paleta fosse monocromática, no caso tons de Terra de Sienna Queimada (pigmento mineral natural), sépia… porque acho estes matizes elegantes, que me remetem a algo antigo. Sou um ilustrador que ama, sobretudo, o aspecto narrativo das imagens, a forma como se encadeiam num todo coeso, página após página, na maneira como conduzem a história, fazendo o olhar do leitor passear”.
Renato Alarcão espera que o seu trabalho seja um incentivo para que os pequenos possam desacelerar o tempo, permitindo uma conexão com a literatura e com o universo das histórias (reais ou imaginárias). “É necessário, diria urgente mesmo, que as crianças sejam protegidas de tantos estímulos vazios de conteúdo simbólico e narrativo; que sejam desafiadas a pensar, a exercitar a memória, a não ficar apenas no verniz e no glitter das telas. Temos esta missão de deter o avanço do lixo digital, deste pisca-pisca alucinado e viciante, da cultura rala e feita para consumo em pequenos bocados de menos de 1 minuto”, defende.
Sobre os autores:
Guillaume Flor - Formado em História e Documentação, é um autor francês apaixonado pela América Latina e pelo Brasil, onde morou por quatro anos. Atualmente, trabalha em uma livraria na França.
Renato Alarcão - É mestre em Artes Narrativas e um artista apaixonado por livros, por história e pela natureza. Nestes mais de trinta anos de carreira já desenhou de tudo: florestas, savanas, oceanos, monstros e heróis. Vencedor de diversos prêmios internacionais, incluindo o de melhor livro infantil ilustrado do ano de 2024 pelo jornal The New York Times.
Serviço:
Evento de lançamento do livro Tupi-Maíra: a origem da aliança entre os tupinambás e os franceses
Data: 16.05, sábado
Horário: 15h
Local: Livraria Blooks de Niterói
Endereço: R. Miguel de Frias, 9 - Icaraí, Niterói, Rio de Janeiro
Preço do livro: R$ 60,00 (impresso)
*Pôster como brinde